terça-feira, 21 de março de 2017

21 de março dia mundial da poesia

Adélia Prado 

Neste dia deixo três poesias registradas: Ensinamento de Adélia Prado, Difícil ser funcionário de João Cabral de Melo Neto e A casa de Pensão de Roberto Marcelo.

Ensinamento

Adélia Prado 


Minha mãe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.


Difícil ser funcionário
João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

A casa de pensão
Roberto Marcelo 


Não vejo meu pai
Nem meus pés
Os devaneios todos acorrentados em cordinhas de varal
Eu vivo no último bastião
No meio do peito uma solidão a me torturar
O chão repleto de coisas
Neste mesmo chão uma antípoda desejando-me saída
Não saio
As portas se abrem
Abrem-me
Águas para todos os tamanhos de meu corpo
Pobreza dividida
Miseráveis migalhas
Miseráveis que somos todos
Nos olhos vejo arrastar-se uma intifada
E meus gritos de socorro
Inúteis
O velho, o comandante e velhos tangos
Falou, me disse:
 É a casa de todos
É a casa de um qualquer
É a minha casa
A casa de pensão!

quinta-feira, 16 de março de 2017

A mulher cananéia

    A mulher tem a compreensão sobre a lei dos judeus, suas práticas e crenças. Por certo ouviu dizer sobre o Messias esperado por seu povo, pois chega ao ponto de chamá-lo "filho de Davi". Ela tem um problema sério social e de saúde, agravado pelo fato de ser sua filha acometida de um mal avassalador e tudo o que havia aprendido sobre a lei, perdeu sua devida importância e a ética que reina em seu coração é apenas a cura da filha, pois a ética transforma-se em fé.
    Os discípulos do mestre queixam-se para que ele logo a mande embora, a mulher não esta sendo ética e não se encontra a altura deles, que pensam merecer a atenção de Jesus, logo ela que vem gritando atrás deles como uma desesperada. 
    Em Jesus, percebo que procura provocá-la, no sentido de querer arrancar o melhor da mulher, sua virtude, fé e seu amor e quando a mulher o faz, referindo-se as migalhas, pois humilha-se quando Jesus lhe é ético fazendo-se cumprir a lei e o propósito do messias. Seus discípulos enxergam na mulher um enorme problema, porém Jesus encontra um meio de amá-la e respeitá-la.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Chiquinho

Francisco Pereira dos Santos foi meu pai. Nasceu no estado da Paraíba, na cidade de Solânea, antiga Vila de Moreno, cidade que teve seu nome inspirada nas Solanáceas um tipo de fruto encontrado em abundância naquela região, distante da capital João Pessoa aproximadamente em cento e quarenta e cinco quilômetro no dia cinco de junho de mil novecentos e vinte oito, por curiosidade foi registrado apenas em doze de maio do mesmo ano, costume cultural dos cidadãos daquela cidade.
Teve uma infância difícil, trabalhou na roça, dois vícios que lhe acompanharam por anos a fio, o cigarro e a cachaça, o amor profundo por sua mãe Maria Olivia da Conceição, os irmãos que o respeitavam e o pai que quase não falava sobre ele e, estudou até a segunda série do antigo primário. Aos dezoito anos partiu para João Pessoa e de lá apanhou um navio e rumou para São Paulo, à terra que adotou e sempre dizia: deu-me tudo que tenho. Chegou à terra da garoa em meados de mil novecentos e cinquenta, foi morar em uma pensão, como já escrevi em uma poesia, o último bastião, andou de bicicleta e de bonde, assistiu pela primeira vez a Luiz Gonzaga em um televisor, tocou sanfona e gaita, teve alguns amigos, conheceu Iraci Maria e casaram-se, tiveram cinco filhos são eles: Terezinha Maria, chamava-lhe dona Tereza, Maria Lucia, dá mesma forma Dona Maria, Solânia que lhe deu o nome de sua cidade natal e chamava-lhe por Dó, Rita de Cássia, também dona Rita e este que lhes escreve, Roberto Marcelo ou apenas Tché.
Francisco aos quarenta e quatro anos em decorrência do vicio em cachaça, o desemprego que lhe surrou e o desequilíbrio emocional, tentou o suicídio. Conta que no dia três de dezembro de mil novecentos e setenta e dois, subiu no parapeito da velha ponte Vila Maria e tendo a intenção de jogar-se dali, ouviu a voz divina de Deus, a lhe encorajar que não o fizesse e, retornou para a via, conseguiu um emprego que seguiu até a aposentadoria e nunca mais bebeu novamente.
Pela vida criou os filhos a distância, já que vivia mais no serviço que em outro lugar, sem férias ou folgas entregou-se a Selmec seu mais precioso trabalho, trazia os lanches que ganhava de madrugada no emprego, para casa e a família que por vezes não tinha o desjejum pudesse comê-los pela manhã, por vezes a esposa o alertava: Chico não teremos nada para comer no dia de hoje e o velho Francisco entregava a marmita que levaria ao trabalho, depositava nas mãos da mulher para que os filhos pudessem comer aquele alimento tão importante, e Iraci lhe questionava: e você o que comerá? Respondia a mulher, eu me viro Iraci, e com sua pequena bolsa de tecido partia para a labuta.  Desistiu do mar, bebeu café, viajava de trem todos os dias, era um exímio prensista, os irmãos o visitavam em casa, perdeu dois dos dedos da mão direita em uma prensa na empresa, e passou a ajeitar os óculos com os três dedos que lhe restaram, detestava as greves dos metalúrgicos que o impediam de ir ao trabalho, um dia, dizia ele, que olhou para o céu com sua cara pegadora e disse a Deus: não fumo mais e jogou os cigarros que portava ao lixo para nunca mais os adquirir, aposentou-se e nunca mais teve patrão.
Um dia ao chegar em casa o encontrei carpindo o terreno baldio ao lado, perguntei-lhe: o que faz ai pai? Ele respondeu-me: vou plantar algumas coisas... Meses depois ali havia milho, chuchu, mandioca... Perguntei-lhe: onde aprendeu a plantar assim? Ele me respondeu, quando era moço em minha cidade natal o fazia como faço agora, o autodidata não esquece o que lhe esta na vida. Houve tempo para outro acidente grave, caiu do telhado e quase perdeu a vida, mas forte como era prosseguiu, agora com a perna da fratura mais curta que a outra, mesmo assim com o apoio de uma bengala retornou suas caminhadas pelas ruas da velha Itaquera. Chiquinho era o nome que escolhera para o chamarem com carinho, inventou palavras e nomes como: quem tem com que me pague não me deve nada, cherengo dengo, Zé Borunga, Borito, réve nigh ninh flith, macaco é dezessete e o rabo é pra trás, estou com a cachorra, tudo azul, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio, risca o fósforo taca fogo e sai de perto, isso é qualidade de gente? Com a mão direita sem os dedos a lançava para trás e dizia: não vem hoje! o estudo e a musica nunca acabam...
No ano de dois mil e três, eu possuía um aparelho de telefone celular, e o toque que identificava chamadas recebidas era de uma música linda que por mais que me esforçasse não conseguia identificá-la, se fora modificada eletronicamente. Certo dia, ao conversar com um colega de sala no curso de jornalismo, coloquei o toque para ele ouvir, a saber, se ele conhecia a tal musica. Ele me disse que procurasse por um amigo dele em um sebo no centro da cidade e fui. O amigo identificou a música sendo de Johann Sebastian Bach – Tocata e Fuga em Ré Menor. Anos mais tarde, ao presentear meu saudoso pai com um DVD do mestre Sivuca, assisti junto de Chiquinho o grande sanfoneiro tocar Tocata e Fuga em Ré Menor em sua sanfona mágica e pensei: A vida é mesmo uma grande busca!


Já no final da vida foi perdendo seus amores, a mãe falecera na cidade natal paraibana, e assim foi sendo Luiz Gonzaga, a esposa Iraci, os cunhados e irmãos e por fim Sivuca o grandioso sanfoneiro. Nasceram-lhe os netos, teve vitiligo, cozinhava para si, foi morar com a filha que mais amava, em cirurgia arrancaram-lhe a vesícula supurada, a perna e, partiu. Mas antes da partida para o mundo dos espíritos, ainda no leito da morte teve a maior decisão que um homem deve conceber. A filha Dó lhe fez o apelo e ele aceitou o grande Salvador, o Cristo bendito, O Senhor Jesus, o rei e, assim pode partir em paz a encontrar aquele que o salvara. Apenas para registro.