sexta-feira, 3 de março de 2017

Chiquinho

Francisco Pereira dos Santos foi meu pai. Nasceu no estado da Paraíba, na cidade de Solânea, antiga Vila de Moreno, cidade que teve seu nome inspirada nas Solanáceas um tipo de fruto encontrado em abundância naquela região, distante da capital João Pessoa aproximadamente em cento e quarenta e cinco quilômetro no dia cinco de junho de mil novecentos e vinte oito, por curiosidade foi registrado apenas em doze de maio do mesmo ano, costume cultural dos cidadãos daquela cidade.
Teve uma infância difícil, trabalhou na roça, dois vícios que lhe acompanharam por anos a fio, o cigarro e a cachaça, o amor profundo por sua mãe Maria Olivia da Conceição, os irmãos que o respeitavam e o pai que quase não falava sobre ele e, estudou até a segunda série do antigo primário. Aos dezoito anos partiu para João Pessoa e de lá apanhou um navio e rumou para São Paulo, à terra que adotou e sempre dizia: deu-me tudo que tenho. Chegou à terra da garoa em meados de mil novecentos e cinquenta, foi morar em uma pensão, como já escrevi em uma poesia, o último bastião, andou de bicicleta e de bonde, assistiu pela primeira vez a Luiz Gonzaga em um televisor, tocou sanfona e gaita, teve alguns amigos, conheceu Iraci Maria e casaram-se, tiveram cinco filhos são eles: Terezinha Maria, chamava-lhe dona Tereza, Maria Lucia, dá mesma forma Dona Maria, Solânia que lhe deu o nome de sua cidade natal e chamava-lhe por Dó, Rita de Cássia, também dona Rita e este que lhes escreve, Roberto Marcelo ou apenas Tché.
Francisco aos quarenta e quatro anos em decorrência do vicio em cachaça, o desemprego que lhe surrou e o desequilíbrio emocional, tentou o suicídio. Conta que no dia três de dezembro de mil novecentos e setenta e dois, subiu no parapeito da velha ponte Vila Maria e tendo a intenção de jogar-se dali, ouviu a voz divina de Deus, a lhe encorajar que não o fizesse e, retornou para a via, conseguiu um emprego que seguiu até a aposentadoria e nunca mais bebeu novamente.
Pela vida criou os filhos a distância, já que vivia mais no serviço que em outro lugar, sem férias ou folgas entregou-se a Selmec seu mais precioso trabalho, trazia os lanches que ganhava de madrugada no emprego, para casa e a família que por vezes não tinha o desjejum pudesse comê-los pela manhã, por vezes a esposa o alertava: Chico não teremos nada para comer no dia de hoje e o velho Francisco entregava a marmita que levaria ao trabalho, depositava nas mãos da mulher para que os filhos pudessem comer aquele alimento tão importante, e Iraci lhe questionava: e você o que comerá? Respondia a mulher, eu me viro Iraci, e com sua pequena bolsa de tecido partia para a labuta.  Desistiu do mar, bebeu café, viajava de trem todos os dias, era um exímio prensista, os irmãos o visitavam em casa, perdeu dois dos dedos da mão direita em uma prensa na empresa, e passou a ajeitar os óculos com os três dedos que lhe restaram, detestava as greves dos metalúrgicos que o impediam de ir ao trabalho, um dia, dizia ele, que olhou para o céu com sua cara pegadora e disse a Deus: não fumo mais e jogou os cigarros que portava ao lixo para nunca mais os adquirir, aposentou-se e nunca mais teve patrão.
Um dia ao chegar em casa o encontrei carpindo o terreno baldio ao lado, perguntei-lhe: o que faz ai pai? Ele respondeu-me: vou plantar algumas coisas... Meses depois ali havia milho, chuchu, mandioca... Perguntei-lhe: onde aprendeu a plantar assim? Ele me respondeu, quando era moço em minha cidade natal o fazia como faço agora, o autodidata não esquece o que lhe esta na vida. Houve tempo para outro acidente grave, caiu do telhado e quase perdeu a vida, mas forte como era prosseguiu, agora com a perna da fratura mais curta que a outra, mesmo assim com o apoio de uma bengala retornou suas caminhadas pelas ruas da velha Itaquera. Chiquinho era o nome que escolhera para o chamarem com carinho, inventou palavras e nomes como: quem tem com que me pague não me deve nada, cherengo dengo, Zé Borunga, Borito, réve nigh ninh flith, macaco é dezessete e o rabo é pra trás, estou com a cachorra, tudo azul, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio, risca o fósforo taca fogo e sai de perto, isso é qualidade de gente? Com a mão direita sem os dedos a lançava para trás e dizia: não vem hoje! o estudo e a musica nunca acabam...
No ano de dois mil e três, eu possuía um aparelho de telefone celular, e o toque que identificava chamadas recebidas era de uma música linda que por mais que me esforçasse não conseguia identificá-la, se fora modificada eletronicamente. Certo dia, ao conversar com um colega de sala no curso de jornalismo, coloquei o toque para ele ouvir, a saber, se ele conhecia a tal musica. Ele me disse que procurasse por um amigo dele em um sebo no centro da cidade e fui. O amigo identificou a música sendo de Johann Sebastian Bach – Tocata e Fuga em Ré Menor. Anos mais tarde, ao presentear meu saudoso pai com um DVD do mestre Sivuca, assisti junto de Chiquinho o grande sanfoneiro tocar Tocata e Fuga em Ré Menor em sua sanfona mágica e pensei: A vida é mesmo uma grande busca!


Já no final da vida foi perdendo seus amores, a mãe falecera na cidade natal paraibana, e assim foi sendo Luiz Gonzaga, a esposa Iraci, os cunhados e irmãos e por fim Sivuca o grandioso sanfoneiro. Nasceram-lhe os netos, teve vitiligo, cozinhava para si, foi morar com a filha que mais amava, em cirurgia arrancaram-lhe a vesícula supurada, a perna e, partiu. Mas antes da partida para o mundo dos espíritos, ainda no leito da morte teve a maior decisão que um homem deve conceber. A filha Dó lhe fez o apelo e ele aceitou o grande Salvador, o Cristo bendito, O Senhor Jesus, o rei e, assim pode partir em paz a encontrar aquele que o salvara. Apenas para registro.