quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conversas com Givanildo




Givanildo é um homem sério de coração amolecido, autodidata em conhecimentos da vida, apaixonado por biografias e fã de literaturas diversas.
Um hercúleo desses que não desprezam a força que tem, outro dia fez com que um colega de trabalho subisse em cima de um balcão devido a força que impunha no aperto de mão ao outro que não resistindo depositou-se ali e sem tréguas clamava o fim do aperto caloroso.
Casado com Veronica que lhe deu dois filhos, recentemente comprou um cãozinho de companhia para a família, dizia: a Kiara conquistou a todos! Discursava-nos todos os dias no trabalho.
Dividi minhas tardes com ele durante mais de ano, foram discussões acaloradas sobre diversos assuntos do cotidiano que nos envolvia, também falávamos de obras de arte, futebol, literatura, saúde, política... Hoje já não trabalhamos mais juntos, mas confesso que sinto muito a falta do companheirismo que ele me dedicava ao qual tornou minhas tardes menos monótonas e frias. Antes de me despedir me deu um forte abraço, desses que só os amigos podem trocar e disse-me com os óculos anuviados: Vê se não some!
Esta semana abri um vinho que ele havia me presenteado: um Carmenère chileno. Em pensamentos brindei a amizade que tivemos em tão pouco tempo, olhei para o vinho tão intenso na taça e confessei: obrigado amigo Giva, você é especial.

sábado, 9 de abril de 2011

Diário de partida da mulher amada


Se partir

meu coração será estrábico

Andante, vai por aí a zunir

E tendo sorte

encontre um canto que lhe possam cerzir

Cerzido fica a cicatriz

e alguém ao ouvido que me diz: agir rapaz, agir!

Eu com olhares repondo: agir!

A quem hei de seduzir?

Mas a palavra falada tenta me acudir

diz ao receptor: deixe de me zurzir!

Já não basta a mulher amada que não quer meus dias vestir?

Quanta tristeza enfadonha neste ir

O verbo no imperativo de pensamentos gelados

tenta tudo a volta descolorir

Imagino uma camisa de forças ao corpo aderir

Porque afinal ela tinha que partir

As lágrimas e as chuvas frequentes a adir

Ir, ir, ir...

Não penso em outra coisa

se coisas servem ao intelecto para transmitir

uma maneira de este problema sucumbir

A solidão insana que tenta me iludir

Se não partisse para longe teria que admitir

Que me amas!

Assim na distância eu não teria que refletir

Aferir

uma esperança

espero-te na porta a vir

Tolice minha crer nos pincéis que querem este desejo colorir

o que machuca é esta indiferença que não quer sair

Da sua partida que não demora o seu por vir


quarta-feira, 30 de março de 2011

Os Céus de Jesus



Em meio aos muitos discursos de Jesus o Cristo e Senhor, disse Ele a seus discípulos: "não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, credes também em mim.


Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu não vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também".


Ele diz sobre um céu que foge a nosso conhecimento mental e espiritual. O apostolo Paulo nos relata em suas cartas aos coríntios que conhecia um homem em Cristo, que havia sido arrebatado até o terceiro céu, o que dizia ele?


Ontem entrei no trem, a fim de ir para o trabalho, a cobertura da estação impedia de ver o céu. Quando o trem enfim partiu, o céu se mostrou a frente, precisamente a oeste de um alaranjado fantástico, olhei no relógio para registrar: eram dezoito horas e cinco minutos, o sol enfraquecido pela distância apresentava-se na cor de um amarelo de cádimo, outras partes do céu em amarelo limão e algumas nuvens enegrecidas e esparsas lutavam para não se tornarem laranjas, corri meus olhos para trás, ao norte e nordeste, ali sim nuvens negras de chuva tornavam tudo viuvez, imaginei uma echarpe a cobrir o que é belo.


Olhava ao redor do trem em movimento e a minha volta, pessoas também alaranjadas não desconfiavam de nada, não reparavam no espetáculo, naquele céu perfeito, creio que o mais belo que já vi, emocionei-me queria parar o tempo e sugar aquele instante para minha alma tão carente em meio aos últimos acontecimentos trágicos que a humanidade passa, me deleitava com aquele céu, pude ouvir a voz do Criador a dizer: "é seu use-o como quiser, amanhã faço outro diferente..." O primeiro céu exuberante de todos os dias, o nosso firmamento.




Hoje corri a janela, registro outra vez o tempo: dezesseis horas e cinquenta minutos, o mesmo céu agora esta todo prateado, Ele o fez diferente como havia prometido, estou feliz ao ver o mundo assim colorido e, esperançoso por conhecer as moradas que Ele nos prometeu, certamente tão mais belo, que os poetas, pintores ou escritores não puderam nos mostrar igual.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Os borralhos de minha mãe


Quando menino minha mãe chamava-me de Alberto, devido a um ex-patrão dela e, que dizia adorar o nome. Eu então passei a ter além de Roberto e Marcelo, o nome de Alberto, eu era uma personagem de uma literatura real e minha mãe a escritora.

Sentia-me tão livre em cada nome, que me comportava como se tivesse 3 pseudônimos a me levar pelo sabor da vida. Minha mãe analfabeta, nascida no sertão pernambucano em 1928, tinha uma personalidade fantástica, autodidata, lia melhor que muitos que conheciam o alfabeto, vestia-se feito uma dama francesa da década de 30 ou 40 em plenos anos 1980, mas com um pensamento muito a frente de seu tempo. Carismática, feliz, mulher e humana.

Entre muito que aprendi com ela, sempre ouvia-lhe dizer: "Meu filho o céu de minha terra é de um azul intenso e belo, não feito este céu de sua terra, céu de borralho.", ou "você não quer ir com a mãe neste passeio" eu dizia que não queria, e ela me provocava dizendo: "então fique no borralho". Cresci ouvindo esta palavra.

Outro dia no trabalho, ouvi uma colega dizer:"meus filhos não param um minuto, parecem lagartixas quando caem no borralho!". Aquela palavra, mas aquela palavra, me lançou ao infinito, me senti o Alberto, trouxe minha mãe tão próxima de minha alma que podia senti-la a me olhar com um carinho profundo e sabedoria de quem sabe o que quer. Minha mãe Iraci, saudades que me chegaram aos olhos, ao coração, a me dizer sobre seus borralhos, que havia tanta vida em uma palavra sem importância, uma palavra que ela encontrava tantos sinônimos, que eu me perdia em tanta beleza, o borralho que não era só cinzas mornas, eram casas, céus, ruas, parques, distâncias, cidades e estrelas.

Minha velha mãe, um pouquinho de sua sabedoria continua em mim, me impulsiona a encontrar tantos sinônimos em uma só palavra, feito você.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Adeus José Saramago


A primeira vez que tive contato com ele, não foi ao acaso, minha irmã mais nova, havia pouco tempo se formara no curso de letras e, faria aniversário dali a poucos dias, saí a procura de algo para presentear-lhe.

Ao entrar em uma livraria vi seu livro em uma pilha gigante, chamava-se "Ensaio sobre a cegueira, José Saramago". Passei o livro para as mãos e folhei-lhe todo, dizia na capa "Prêmio Nobel", crendo que ela adoraria o presente, acertei, minha irmã Rita toda feliz disse-me que deveria ler a obra e eu o fiz. Daí em diante me apaixonei pelos livros deste português estranho, ao menos para mim.

Alguns anos depois, cursava o 1º ano do curso de jornalismo, quando um de nossos professores chegou com alguns convites para uma cátedra e lançamento do livro "O homem duplicado", pela primeira vez na vida ouvi o autor de um livro ler sua obra. Fiquei emocionado com sua leitura pausada, o sotaque lisboeta intenso e delgado, falava com tanta força o nome da personagem Maria da Paz, que me conduzia para o leito da história, eu ali real a observar toda a beleza de Maria da Paz com seus gestos de amor.

Mais tarde o vi pessoalmente no SESC Pinheiros e lhe disse: José um dia eu serei um grande escritor assim como o senhor o é, ele me respondeu: podes não ser? eu insisti, mas serei, pois vou me dedicar para isso, ele olhando-me nos olhos disse outra vez: vou lhe dar um conselho, o conselho é bom, se queres podes ficar com ele, se não fico eu com o conselho, disse-lhe que queria o conselho, ele me disse amavelmente: leia, leia, leia, leia... e escreva e deixe as coisas acontecerem naturalmente, boa sorte e me apertou a mão.

José Saramago, grandíssimo homem e escritor, sua estada nesta vida previsível foi o máximo, dedicou em um de seus livros, A Pilar até o último instante, e partiu nos braços de sua amada mulher, em Blimunda me emocionei quando li : "começava a escurecer, mas, agora, de nenhuma noite teria medo, se tão negra é a que leva dentro de si", em João Mal-Tempo, do Levantado do chão, "... que por enquanto o espelho ainda pode mostrar-me, se isto é a força da vida, então deixem-me chorar.", o homem precisa chorar Saramago. Escreveu ainda mais em seus Cadernos de Lanzarote que a porta por onde se chega a Fernando Pessoa é a porta que se chega a Portugal, para mim, você é a mais nova porta que se chega a Portugal.

Pode acreditar deixaste a língua portuguesa mais saborosa e a literatura pelo mundo belíssima e duradoura.