quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A casa de pensão

Esta poesia escrevi no ano de 2004, quando passava algumas dificuldades impostas pela vida.

A casa de pensão
Não vejo meu pai
Nem meus pés
Os devaneios todos acorrentados em cordinhas de varal
Eu vivo no último bastião
No meio do peito uma solidão a me torturar
O chão repleto de coisas
Neste mesmo chão uma antípoda desejando-me saída
Não saio
As portas se abrem
Abrem-me
Águas para todos os tamanhos de meu corpo
Pobreza dividida
Miseráveis migalhas
Miseráveis que somos todos
Nos olhos vejo arrastar-se uma intifada
E meus gritos de socorro
Inúteis
O velho, o comandante e seus tangos
Falou, me disse:
É a casa de todos
É a casa de um qualquer
É a minha casa
A casa de pensão

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O menino que só assistia



Onde a paixão de uma pessoa por algo pode levá-la? A Artur Afonso do Céu a paixão pelo cinema o levou a todos os cantos do Brasil. Quando criança, um dia sonhou em ser um filme e nas andanças pelo mundo e com o passar dos anos, assistiu a grandes telas e a histórias de vida. O que não imaginava é que nesse trajeto compunha a sua própria película, com dramas, romances, suspenses, comédias e aventuras.

O final, esse não pode ser desvendado, mas o filme ele se torna. Expectador e personagem principal unem-se e constroem uma obra daquelas que se tornam inesquecíveis. Mais uma vez, Roberto Marcelo, escreve sobre a vida e nos instiga a não querer mais largar suas palavras em busca de desvendar cada acontecimento; como a nossa própria existência, que nos excita a acordar cada dia tentando decifrar a nossa própria história.

Carolina Vilela Jornalista

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Rua São Teófilo




Há tempos não via a Rua São Teófilo na vila Medeiros em São Paulo, a última vez foi há quarenta anos, quando eu tinha quatro anos de idade.
No último mês de junho, minha irmã Rita me convidou a irmos a Vila Medeiros e pude retornar a aquele lugar de minha infância. Rua que leva o nome de um antigo teólogo cristão e bispo de Antioquia na Síria que viveu até o ano 186 DC, Teófilo. Tantas lembranças me subiram ao coração. Naquele ano de 1972, havia uma lojinha de presentes e brinquedos e, sempre seu proprietário, em um terreno baldio ao lado de sua loja, incendiava o que não mais lhe interessava e em uma manhã gloriosa, um dos colegas da rua deu o brado de vitória: Estão queimando brinquedos da lojinha! Eu saí em uma disparada fantástica e fui um dos primeiros a chegar ao local da chacina, com meus olhos pasmados, pude ver vários brinquedos a queimarem, ao lado vi uma coelhinha de plástico e ao oposto vários brinquedos incríveis para minha pobreza e, em uma dúvida cruel, optei em resgatar a coelha, enfiei a mão no fogo e a trouxe para mim, quando retornei a ver se apanhava mais algum brinquedo não restou nada mais,ou foram apanhados pelas outras crianças ou as chamas os devoraram. Ao escolher a pequena coelha descobri que possuía um coração danado de compassivo. Dei o nome a ela de Tetê e ela vive comigo há quarenta anos com o sinal da queimadura em sua pata direita.

Naquela rua vivi anos incríveis de minha vida, ali criei meus primeiros personagens, via minhas irmãs devorarem leituras de gibi e eu maluco para aprender ler e também saciá-los ou quando esperávamos minha mãe cansada do trabalho no dia de seu aniversário, alguém das irmãs olhava pela ruazinha sua aproximação, apagávamos toda a casa e quando ela adentrava cantavamos os parabéns a ela, no auge de seus 44 anos, uma menina ainda, e me pergunto: O que aconteceu conosco? Onde nos perdemos? Aprendi logo cedo que a pobreza nos enfraquece, comia muito uma mistura de farinha, água e açúcar que na maioria das vezes era o que tínhamos para saciar a fome, lembro-me da minha gatinha Mimi, que depois do despejo que sofremos por falta de pagamento do aluguel, se perdeu no novo bairro que passamos a residir, como sofri com isso! Visitei a caixa d’água em frente ao colégio público, a Rua São Leotélio onde morava minha avó Geralzina e, a avenida Conceição que sempre levava minha mãe para o trabalho que muitas vezes nos arrancava ela por semanas a fio.
Nossa singela casa tinha um quintal, ao qual dividíamos com mais outras quatro famílias, um modesto cortiço, onde varais de roupas, plantas, objetos diversos e pessoas a transitar, me dava à impressão de vivermos em uma grande cidade.
Hoje quarenta anos depois tudo esta diferente, a lojinha de brinquedos não existe mais, o cortiço que continha minha casinha também não, foi trocado por uma casa moderna. O que não mudou foi meu coração, que mesmo depois de tantos anos pode se alegrar com aquela rua com nome de bispo teólogo, alegrou-se da mesma forma que o coração do menino se alegrava sem saber da pobreza física que sofria. Minhas irmãs que cuidavam de mim, meu pai forte trabalhador e minha mãe Que conduzia tudo com seu carisma fenomenal, naqueles inesquecíveis anos.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Páginas em rosa


 Amo-te
 Por que eu?
 Porque me ocupa a vida, o rosto, braços e pernas, pele e suor, unhas e 
pescoço e tudo e mais e muito mais
 Porque és belo Senhor e tens o Espírito adocicado, suave e amado
 És benigno e tua benignidade alojou-se em mim
 Assim como a brisa quente domina a tranquilizar mares profundos e subalternos
 És uma joia para mim, não a que se encontra em lojas finas ou butiques de glamour
 Mas uma joia rara, de brilho autêntico, que bem sei encontraria apenas após percorrer noventa e oito anos o mundo bastante
 e, só diante de ti encontraria, tamanha beleza
 Tive sorte, no auge da vida, quando nada era o que buscava, então pude me deparar com teus olhos, 
sorrisos, e gestos e esplendor a brilharem em mim, como jamais havia me chegado
 Já no primeiro olhar, levaste meu coração, o pensamento, as lágrimas e os sentimentos
 De imediato me questiono: “onde me caberia tamanha beleza?
 Reconstruindo-me durante o resvalar do pensamento com o coração
 Não tive noites ou dias
 Sons ou silêncios
 Falas ou olhares Lágrimas ou sorrisos 
E o deitei em mim, para que permaneças meu, amado mestre e Cristo
 Certo, me dizem, me dirão: “que louco és!”
 Sim melhor me é ser louco, do que a passar pela vida despido de tamanha beleza de sentimentos
 Louco sim, covarde jamais!
 Covardia que não possuo, nunca possuirei 
A covardia é para os fracos que se trancam em mundos intransferíveis,
 inventados
 Eu mesmo mundo não o tenho e minha coragem é o alicerce que impulsiona-me as palavras de amor que sinto por ti, 
querido Jesus
 Quem mais me amaria assim, ou me desejaria com tanta força?
 E eu tentando ao menos escrever um ensaio de tua formosura...
E tua habitação, as janelas, que tesouro elas possuem.
 Enquadradas te assistem, muito mais do que estas páginas em rosa que te escrevo

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O maior de todos os males



Todos os dias pela manhã, ao sair ao quintal lá de casa, me deparava com aquele homem horrível, ou seja, de aspecto medonho, a barba por fazer, unhas dos pés e das mãos enormes, sujas e mal cuidadas, as roupas velhas que, só de olhar para elas, já cheiravam mal.



Não parava por aí, andava pelo quintal meio trôpego, despertando a um estranho que passasse pela rua, se tratar de um mendigo que invadira a propriedade alheia. Usava uma sandália de tiras, dessas que prendem-se no meio dos dois maiores dedos do pé e que não acompanhava o tamanho da sola, deixando os calcanhares de fora.



Assim era aquele homem, meu vizinho, que todas as manhãs me assustava com seu aspecto. Então me perguntava: "Ao menos deve tomar um banho por dia. será?". Muitas vezes , ao sair pela manhã , fingia estar a concertar algo no carro, para despistando podê-lo ver melhor.



Em uma ocasião, quando fechei a porta de entrada de casa e ia ganhar a rua, logo após entrar no carro, o vi cuidando de uma flores esquisitas plantadas a sua frente. Então como se fosse uma escavadeira, ele enfiava uma das mãos na terra e quando retornava com ela, suas unhas enormes vinham repletas de barro, para logo após suavemente introduzir um novo vegetal à terra molhada. Aquilo tudo me causava um nojo danado. Ali observando-o da janela do meu carro, fiquei hipnotizado com aquela cena. Quando voltei a mim, ele observava-me fixamente, eu perdido e sem graça, continuei sem ação e, ele logo me disse: "Bom dia", em tom alto, porém com muita simpatia. Respondi-lhe desajeitado e com o rosto rubro o bom dia, grudei as mãos no volante, acelerei o carro e me mandei para o trabalho.



Durante muito tempo aquele homem horrível não me saía da memória. Quando minha esposa entrou para o sétimo mês de gestação, desliguei-me de meu vizinho tenebroso em definitivo, pois tive que passar a entrar mais tarde no trabalho e acompanhar minha esposa em seu pré-natal, perdendo o cotidiano daquele jardineiro sujo, não vendo-o mais a enfiar as mãos na terra cuidando de suas plantas.



Certo dia pela manhã , minha esposa deu sinais que daria a luz muito em breve. Primeiro foi a bolsa uterina que rompeu e logo as dores de parto começaram a lhe incomodar. Fiquei totalmente nervoso, troquei meu único filho, até então de pijama, peguei a mulher chorosa e fui até o carro para partirmos ruma a maternidade.



Minha esposa, assustada, com os olhos arregalados, me disse: "Não podemos levar o Júnior para a maternidade!" .Mais confuso ainda, não sabia com quem deixaria meu filho. Olhei por toda a vizinhança e nada, nem sequer um conhecido. Foi quando surgiu meu horrível vizinho saindo de sua casa e, a mesma situação de sempre, as unhas cumpridas, a barba enorme... Não pensei mais, corri até ele, expliquei a situação. Deixei-lhe meu filho e com os nervos em aço, parti em direção ao hospital. Ao nascer meu segundo filho, dessa vez uma menina linda e em meio a celebração, dei por conta que Júnior estava em companhia daquele homem horrível, ao qual nem o nome havia lhe perguntado. Depressa corri para lá, enquanto dirigia, pensava no menino sendo cuidado por aquele homem sem asseio pessoal e ao pensar nas unhas cumpridas, tinha calafrios.



Cheguei em frente a sua casa, bati palmas, sua esposa convidou-me para entrar dando-me parabéns por ser pai novamente. Quando adentrei na casa, mais impressionado fiquei quando notei tudo muito bonito e organizado, meu filho dormia no sofá com um edredom limpo e meu vizinho dedilhava um violão, com suas unhas de sempre, porém limpas, uma roupa mais limpa e alinhada. Pediu-me desculpas, pois tinha uma alergia na pele que lhe impedia de barbear-se. Peguei meu filho, despedi-me agradecendo-lhes, indo para minha casa, mas antes ainda convidaram-me para o jantar, onde apreciamos um delicioso vinho. Soube depois que as roupas velhas ele usava sempre para cuidar de seu jardim.



Com tudo isso, de imediato, descobri em mim mesmo o maior de todos os males: A discriminação!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conversas com Givanildo




Givanildo é um homem sério de coração amolecido, autodidata em conhecimentos da vida, apaixonado por biografias e fã de literaturas diversas.
Um hercúleo desses que não desprezam a força que tem, outro dia fez com que um colega de trabalho subisse em cima de um balcão devido a força que impunha no aperto de mão ao outro que não resistindo depositou-se ali e sem tréguas clamava o fim do aperto caloroso.
Casado com Veronica que lhe deu dois filhos, recentemente comprou um cãozinho de companhia para a família, dizia: a Kiara conquistou a todos! Discursava-nos todos os dias no trabalho.
Dividi minhas tardes com ele durante mais de ano, foram discussões acaloradas sobre diversos assuntos do cotidiano que nos envolvia, também falávamos de obras de arte, futebol, literatura, saúde, política... Hoje já não trabalhamos mais juntos, mas confesso que sinto muito a falta do companheirismo que ele me dedicava ao qual tornou minhas tardes menos monótonas e frias. Antes de me despedir me deu um forte abraço, desses que só os amigos podem trocar e disse-me com os óculos anuviados: Vê se não some!
Esta semana abri um vinho que ele havia me presenteado: um Carmenère chileno. Em pensamentos brindei a amizade que tivemos em tão pouco tempo, olhei para o vinho tão intenso na taça e confessei: obrigado amigo Giva, você é especial.